“E lá estava ele a conjurar suas palavras de fel, com o ardor de quem se acredita com razão. Bradava suas lamúrias, e conjurava seus impropérios, acusando os seus de não o compreenderem, colaboradores da preguiça de tentar e amigos do abandono nestes momentos. Dizia-se abandonado à própria sorte, se é que isso era sorte, e não mais clamava pelo amor, mas, sim, pelo ódio, culpando Deus e o diabo por um conluio contra sua existência. Lá estava ele, que não se lembrava mais das lições de sua avó materna, que dizia sempre que o encontrava emburrado: ’perdoa a ti mesmo e ao teu próximo, e tu verás novamente o sol a nascer em teu coração’.
Lá estava ele em um tempo qualquer. Em outros tempos.”
Tantas são as vezes em que culpamos o mundo por nossos erros, por nossas falhas, não enxergando que somos passíveis de não estarmos certos em nossas falas e gestos e que precisamos voltar dois passos para, então, seguir.
Mesmo conhecendo a sabedoria da oração, tendo a possibilidade de uma conversa com a espiritualidade e de escutar com nosso coração, para encontrar novamente a razão, precisamos nos redimir diante das agruras que, na maioria das vezes, são criadas por nós mesmos.
Como são pequenas as zangas com o mundo quando tiramos o véu que nos cobre a visão e conseguimos perceber que o outro já sofreu e sofre muito mais.
Quando nosso próximo já perdeu e perde aquilo que ainda possuímos em profusão.
Quando já se desencontrou e se desencontra com todos aqueles que o amam, que estão a seu lado e, mesmo assim, não consegue mais enxergá-los.
Estamos nesta vida de passagem, escolhemos seguir por este caminho e temos a possibilidade de conhecer e reconhecer nossos erros pretéritos e presentes, bem como de modificá-los de acordo com as leis divinas, que nos são ensinadas a todo o tempo.
Somos capazes de perceber e entender o outro, suas falhas e tormentos, mas somos ainda mais capazes de compreender as nossas próprias falhas e tormentos e saber que temos as ferramentas para sua reparação.
Ferramentas que o Pai nos ensinou a usar para lavrar a terra impoluta do coração e da alma e, então, adubá-la melhor, plantar as sementes do amor, da esperança e da resiliência, na expectativa da colheita farta do perdão incondicional dos erros dos outros e da nossa própria falta de paciência e tranquilidade para solucioná-los.
Então, nunca se entenda relegado ao segundo plano de Deus, mas se coloque à disposição de sua própria consciência e percepção para sanar os fatos e atos que possam vir a comprometer sua fé e seu amor ao próximo. E, assim, ao encontrar um desvio no caminho, pare, olhe e escute seu coração e encontrará novamente a trilha do amor, da paz e da benevolência e será capaz de continuar seguindo em direção à Seara do Pai.
E seguirá acompanhado dos que o amam e o auxiliam nesta caminhada, calmo e resoluto e com a certeza da conquista da dita “sorte” que tantos clamam e que entendemos como um mérito pelo seu trabalho, por sua obra, que ainda está longe de terminar e só pode ser erguida com a força e a proteção de nosso Pai Celestial e de Seus obreiros.
Que haja sempre paz e amor em seus dias. Perdoe a si mesmo e ao seu próximo, para que possa, então, encontrar o amor e a esperança de dias melhores.
Que assim seja.
Pelo Espírito de João Ricardo