HOJE EU VIVI

Hoje me levantei, mas não acordei.

Tomei meu café e, mais uma vez, saí a caminhar pelas ruas e não reconheci ninguém.

Não cumprimentei ninguém e, se o fui cumprimentado não me lembro.

Hoje, eu não sei…

Sentei à mesa, li o jornal e não me lembro do que li. Na mesa, tudo estava posto; tudo fiz, mas nada sei.

Hoje, não me lembro mais…

Sentei com todos, mas não sei o que comi, o que disse e o que disseram.

Voltei à mesa, e lá estava tudo o que deixei, mas lá eu não estava.

Hoje eu não enxerguei…

Saí às ruas e novamente não reconheci ninguém e, se fui reconhecido, eu não sei.

Hoje, eu não estava aqui…

Cheguei em casa e não percebi. Se tomei banho, não me sentia limpo; se me alimentei, não me sentia saciado. Assisti ao noticiário e não me recordo do tema, mas também, não me importa mais.

Hoje eu não sou quem eu fui…

Deitei-me, peguei o livro e folheei suas páginas. Dormi? Não sei, porque hoje não me lembro de ter acordado.

Hoje, eu não vivi…

Tantas são as vezes em que passamos os dias em desarmonia e em falta de sintonia conosco e com os outros.

Tantas são as vezes em que esquecemos de orar ao acordar, para então agradecer ao Pai por mais um dia. 

Tantos são os momentos em que não conseguimos olhar o outro, mesmo quando  é conhecido, para buscarmos nos sintonizar com o amor, com a gratidão e com a esperança.

Tantas são as vezes em que não temos tempo nem boa vontade para desejar um bom dia, uma boa tarde, uma boa noite.

Tantas são as vezes em que engolimos os alimentos, sem saboreá-los e sem sequer agradecer, mesmo em pensamento, por esta dádiva, porque não somos capazes de olhar para o lado e ver que logo ali existe um irmão que não se alimenta há dias.

Tantas são as vezes que não conseguimos ligar para dizer um simples olá, a quem amamos.  Quem dirá escutar o desabafo do colega ao lado, que somente quer que o escutemos.

Tantas são as vezes em que não temos a capacidade de abrir um livro e ler sobre o amor, sobre a fé, sobre a esperança. Postamo-nos como máquinas diante da tela e  escutamos a má notícia e sequer rogamos pela benevolência ou suplicamos pelo perdão aos nossos mentores espirituais, em favor dos que sofrem e dos que maltratam. 

Tantas são as vezes em que, ao deitarmos, nos esquecemos de agradecer pela oportunidade de mais um dia e não nos colocamos à disposição para o trabalho na seara do amor.

Tantos são os dias que não vivemos, somente passamos por eles, e até parece que não acordamos. Não somos capazes de doar e tampouco de receber tudo o que nos é permitido.

Hoje eu não vivi minha vida, nem a do meu próximo; eu simplesmente não vivi.

Não fui capaz de enxergar o outro, trabalhar pelo outro. Hoje eu não vivi nem em corpo, nem em espírito.

Amanhã, peço ao Pai que me perdoe pelo ontem e que me deixe doar mais um pouco nesta vida, que não é minha: é Tua Senhor.

Amanhã eu vou trabalhar, não somente para o nosso sustento, mas também em prol dos que clamam por Ti e pela Tua misericórdia.

Amanhã quero viver, mesmo que seja em Tua Seara, mas que seja de forma produtiva e válida, em Teu nome e em nome dos amigos da espiritualidade maior.

Amanhã eu quero acordar e que seja um bom dia, para agradecer por mais este presente que Tu me concedes, porque hoje eu vou viver: em Teu nome, em nome de Teus filhos, em nome do amor. Eu quero viver!

Que assim seja.

Dr. Armando Torres